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Terça-feira, 20 de Maio de 2008
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Justina leva João pela mão. Ao olhar para ele sente que algo de estranho existe no miúdo. Não é como todos os outros. Todas as crianças que ali chegam, àquele Centro de Acolhimento, têm nos olhos desespero. Mais visível ou menos visível, o desespero está lá. Justina quase que consegue ver, nos olhos dessas crianças, a tortura pela qual passaram. Em muitos consegue ainda ver a raiva, noutros o medo de adultos e o receio pela nova experiência de vida que o Centro lhes irá dar. Mas, nos olhos de João, Justina não vê nada disso. Os olhos de João parecem olhar para a frente. Neles Justina vê esperança.

João repara que Justina está a olhar para ele e retribui o olhar. Sente novamente as cores alegres que o cheiro de Justina lhe traz e sorri para ela. Justina sorri de volta e juntos caminham em direcção a um quarto.

João vai tentando sentir o cheiro de todos os sítios por onde vai passando. De uma forma discreta, claro! Os outros não podem saber. É o seu segredo. Só a sua irmã, Alice, sabe deste seu poder. Só ela é que o compreende. Foi ela que lhe disse para nunca falar nele a ninguém, pois era algo de muito especial. E é! Tudo o que existe à sua volta e que cheira, traz-lhe cores que o ajudam a “ver” de outra forma o mundo que o rodeia. Alice disse-lhe que ele é como os super-heróis. Igual aos que existiam nas histórias que ela lhe contava, que viviam para salvar pessoas e fazer o bem.

 

Justina

Este vai ser o teu quarto a partir de hoje.

 

João não pode deixar de ficar admirado com o enorme espaço do quarto. Bem maior do que aquele que partilhava com a sua irmã, na sua casa. E tem beliches! Dois beliches! João olha entusiasmado para tudo, enquanto vai sentindo o cheiro. Um quarto com uma grande janela, pela qual entra a luz da rua. Pintado com cores claras, com armários e arcas coloridas, pequenas prateleiras com livros, e um limpo chão de madeira.

 

Justina

E esta vai ser a tua cama. – diz-lhe indicado-lhe a cama de cima de um dos beliches.

 

João não podia ficar mais satisfeito. Na cama de cima! Para dormir vai ter que subir uma enorme escada, e vai poder fazer isso todas as noites!

Justina vê o enorme entusiasmo de João e não evita um sorriso, quando João olha para ela, e com aquele olhar de esperança, lhe pergunta se pode ir ver a sua cama. Justina limita-se a dizer que sim com a cabeça. João sobe a escada e olha, deliciado, para a sua nova cama. Depois aproveita, e do alto das escadas, olha em volta. Sente-se bem. Sabe que ali está o inicio de uma nova vida. Ali vai poder ser o super- herói que Alice sempre disse que ele era.

publicado por Luis às 12:51
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Terça-feira, 29 de Abril de 2008
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Batem à porta. Justina apressa-se a abri-la. Já estava à espera. Assim que a abre os seus olhos dirigem-se em primeiro lugar para João, uma criança de 6 anos. Justina sorri imediatamente para ele e só depois se dirige aos dois adultos que o acompanham.

 

Justina

Então este é que é o nosso João? - diz para os adultos, enquanto faz uma festa na cabeça da criança. - Entrem. - A doutora está à vossa espera.

 

João olha para Justina e inspira. O cheiro que Justina emana faz com que cores suaves surjam no seu cérebro. Entra e tenta sentir o cheiro daquele ambiente. Não são os quadros alegres, pendurados nas paredes, ou a luz que entra alegremente pela casa que lhe dão a informação que ele quer. Nada disso! São os cheiros que o ajudam a identificar tudo o que o rodeia, os cheiros e as cores que estes lhe provocam na sua cabeça. Aprendeu bem cedo a identificar os maus cheiros, aqueles que lhes preenchem a cabeça de cores violentas, que lhe dão náuseas e fortes dores de cabeça. Mas não eram esses cheiros que estava agora a sentir. Mais uma vez eram cheiros com cores suaves. Sorriu e olhou para os adultos que o acompanharam até àquela casa. Cheiravam a cinzento. Um cheiro normal em grande parte dos adultos com que ultimamente tinha lidado. Pareciam todos envolvidos numa ténue névoa de cinza que teimava em os rodear. Eram aquelas pessoas que faziam sorrisos forçados quando João os encarava. Que receavam falar com ele. Que, de vez em quando, faziam festas na sua cabeça, como se isso os aliviasse de algo. Que não sabiam muito bem de que forma deviam agarrar na sua pequena mão, quando queriam que João os seguisse. João tinha pena dos cinzentos, da névoa que os perseguia, do segredo que pareciam ter escondido dentro deles.

Viu-os a entrar para uma pequena sala, onde deveriam ir falar com a tal doutora e mostrar os montes de papéis que traziam numa pasta. Justina manteve-se junto de João.

 

Justina

Enquanto eles estão ali dentro a falar, vamos conhecer a tua nova casa e o teu quarto, pode ser?

 

João sorriu e abanou a cabeça em concordância. Estava curioso para cheirar todas as novas cores, que existem naquela enorme casa. Uma casa de acolhimento, para crianças vítimas de maus tratos.

publicado por Luis às 23:13
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